terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Projeto de Curta-metragem: O Olhar do Observador


O Olhar do Observador

Ojr Bente - Eliandro


1. Storyline

Ex: Diana + 3 conta a história de Pablo e Dino, dois jovens amigos apaixonados pela mesma menina: Diana. O problema é que Diana namora Vítor, também amigo dos dois. Diana + 3 é um filme sobre o amor e sobre a amizade verdadeira cultivada por Pablo e Dino. 

Duas pessoa, um indígena e um branco e um terceiro observador. Vamos mostrar a visão dos três. O terceiro observador é um antropólogo.
 
Dica: Escreva, no espaço acima, um resumo da sua história. Use, no máximo, cinco linhas. Esse pequeno texto deve conter a ideia central da história. (formatação padrão: fonte Courier New, tamanho 12, espaçamento entre linhas Simples)

2. Justificativa

Diana + 3 é um filme de amor. Quase uma comédia romântica. No entanto, ele aborda o amor de maneira diferente, e é, sem dúvida, mais melancólico e mais profundo do que uma comédia romântica (tendo como referência os filmes que seguem o modelo americano desse gênero).
Em primeiro lugar, Diana + 3 trata do amor de maneira mais abrangente, mostrando a sutileza e a beleza da relação de amizade que existe entre Pablo e Dino, protagonistas do curta. O amor em questão não é só o sentimento entre homem e mulher, entre um casal. É também o amor pelos amigos e o amor pela vida, por tudo que ela ainda reserva para os jovens personagens.
Além disso, o curta quer mostrar um processo pelo qual todos os jovens passam: a individuação. Nesse caso, o personagem mais importante é Pablo, que está em pleno processo de conhecer a si mesmo com mais profundidade, olhando pra dentro de si e para o mundo ao seu redor em busca de sua identidade.
Diana + 3 trata do universo de jovens comuns, sem mitificações nem estereótipos. É uma espécie de crônica cinematográfica que quer mostrar um fragmento da vida de seus personagens, com o intuito de gerar uma reflexão sobre a juventude, sobre o amor e sobre a própria vida.

Dica: Neste espaço, apresente razões que justifiquem a filmagem deste roteiro. Por que filmá-lo? A história tem alguma função social? Qual? Ela diverte o espectador? Aprofunda um tema pouco abordado? Apresente também a ideia que originou esta história. Como ela nasceu? O que a motivou?
Escreva, no máximo, uma página (formatação padrão: fonte Courier New, tamanho 12, espaçamento entre linhas Simples).

3. Plano de Direção
O ideal é que Diana + 3 seja filmado numa cidade de praia, pois é importante traçar um paralelo entre o momento vivido pelos personagens e o horizonte aberto oferecido pela praia.
Os personagens, jovens em busca de sua identidade, serão mostrados muitas vezes em planos bem abertos, sozinhos, sentados na areia da praia, diante do mar e de seu horizonte. A praia é uma metáfora do futuro, aberto em mil possibilidades para os personagens.
Como contraponto a esses planos abertos serão realizados planos bem fechados, nos momentos de maior introspecção dos personagens. Afinal, o processo de se conhecer melhor está relacionado ao olhar sobre o mundo e ao olhar sobre si mesmo.
A trilha sonora só deve aparecer na abertura e no final do curta.
A idéia é trabalhar muito com os sons ambientes, o mar, o vento, os gemidos no apartamento. É através dos olhos (paisagens) e dos ouvidos (ruídos) que os personagens se relacionam de maneira forte com o mundo que os cerca.
Referências interessantes para trabalhar a direção de Diana + 3 são os filmes brasileiros “Proibido Proibir”, de Jorge Durán, e “Houve uma vez dois verões”, de Jorge Furtado.

Os três iniciam a cena com trajes, roupas normais do dia a dia faz o primeiro macro, com três sequências. A primeira sequência é o olhar do observador, depois o olhar do branco, depois o olhar do indígena.

Dica: Como você, roteirista, imagina a sua história filmada? Como seriam as cores e as luzes, o som e a trilha sonora? Pré-visualize as cenas. Que tipos de planos poderiam ser usados? Closes do rosto? Planos abertos? Que referências (outros filmes, cineastas) você poderia indicar para as pessoas que vão filmar sua história? E como você imagina o trabalho com os atores? O melhor seria um resultado mais realista ou mais teatral?
Escreva, no máximo, uma página (formatação padrão: fonte Courier New, tamanho 12, espaçamento entre linhas Simples).

4. Personagens

Indígena

Branco

Antropólogo
 
Pablo – Jovem gordinho, de 23 anos de idade, alto, cabelos escuros, mas pele bem clara. Pablo é um jovem romântico, que toca violão e adora escrever. É fã de escritores e músicos brasileiros. Não leu muita coisa, mas leu coisas legais. Nascido em Arraial do Cabo, Pablo deixou a cidade para tentar a sorte como músico em Cabo Frio. Divide apartamento com Vítor, também músico. Vítor faz mais sucesso que ele. Pablo começa a se perguntar se realmente faz uma música “ultrapassada”, como diz Vítor. Pablo é apaixonado por Diana, mas acha que nunca conseguiria namorar uma garota como ela.

Dino – Melhor amigo de Pablo. Dino é um cara bem magrinho, de 21 anos, morador de Cabo Frio. Dino ainda não terminou o colégio. Faz o segundo ano do segundo grau num supletivo da cidade. Além de melhor amigo, Dino é o maior fã de Pablo. Adora as músicas compostas pelo amigo. Também é apaixonado por Diana. É um cara puro, muito “do bem”. Ama Diana, mas não fica sofrendo por isso. Toca sua vida.

Diana – Namorada de Vítor, Diana é uma garota de 18 anos, linda, pele bem morena. Diana conheceu Pablo e Dino quando começou a namorar Vítor. Muito carinhosa, inteligente e bonita, Diana conquistou o coração de todos os amigos. Gosta muito de Pablo e de Dino, mas escolheu Vítor pra ser seu namorado. Diana é uma garota descolada, que adora o jeitão de “artista moderninho” de Vítor. Diana quer ser atriz.

Vítor – 23 anos, músico. Vítor é um cara bonitão, inteligente e talentoso. Faz música eletrônica e toca na noite de Cabo Frio. É super moderninho, usando roupas da moda e piercings. Algumas vezes “roubou” letras ou melodias compostas por Pablo, colocou uma batida, fez sucesso na noite e não deu os créditos ao amigo. Vítor adora Pablo e Dino. Só é um pouco metido a bonzão, e de vez em quando sacaneia os amigos. Vítor não é exatamente apaixonado por Diana. Costuma ter muitas namoradas (às vezes mais de uma ao mesmo tempo).

Dica: Apresente aqui os personagens da sua história. Quem são eles? Quais são seus perfis físicos e psicológicos? Qual a relação entre eles? O que esses personagens representam? Aponte os personagens principais – justificando sua escolha – e os secundários. Escreva, no máximo, uma página (formatação padrão: fonte Courier New, tamanho 12, espaçamento entre linhas Simples).


PROJETO TÉCNICO

Sinopse
(Faça uma apresentação sintética, precisa e objetiva do filme).

Argumento
(O argumento é elaborado a partir do primeiro conceito do filme, sua idéia original; é algo semelhante a um resumo, no qual estão inseridos os elementos mais significativos da história e os personagens que conduzirão à narrativa).

Proposta de Direção
(Descrição de como será os procedimentos estéticos pretendidos na realização do filme, sua linguagem, fazendo menção à referências de fotografia, montagem e interpretação. Estas poderão estar indicadas em links anexos ao projeto. Nos filmes de animação, a proposta de direção deverá conter também storyboard ou desenhos que definam o estilo da animação a ser adotada no projeto).

Proposta de Produção
(Faça uma apresentação do processo de produção contendo:
a) Cronograma de Produção
b) Estratégia de Produção: explicar como viabilizar a realização deste projeto dentro das restrições de tempo e de orçamento do edital. Se necessário fornecer detalhes técnicos dos equipamentos e recursos a serem utilizados na produção e finalização do curta).

Cronograma de Execução

Metas
Etapa / Fase
Especificação
Indicador Físico
Unidade
Duração
Quantidade
Início
Término
1. Realizar um curta-metragem de ficção em 15mm
Pré-produção
Contratação de equipe; escolha de locações; seleçãode elenco; aluguel de equipamentos; compra de material sensível, de material de arte e produção; concepção de arte e figurino; ensaio com atores;

dias
30
01 de março 2017
31 de março 2017
Produção
Captação de imagens e sons do filme;

dias
06
01 de abril 2017
08 de abril 2017
Finalização
Edição; composição e gravação da trilha; edição de som; mixagem; processos de laboratório.

dias
60
09 de abril de 2017
07 de junho de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa


geertz (1)

Texto base:

O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa - Breves palavras sobre o capítulo 8 – fatos e leis em uma perspectiva comparativa – do livro O saber local de autoria de Clifford Geertz, antropólogo americano.

https://amantesdeleitura.wordpress.com/2016/01/29/o-saber-local-fatos-e-leis-em-uma-perspectiva-comparativa/

Breves palavras sobre o capítulo 8 – fatos e leis em uma perspectiva comparativa – do livro O saber local de autoria de Clifford Geertz, antropólogo americano.
Em sua obra o autor analisa a questão do direito diante de uma perspectiva antropológica interpretativa e de fatos sociais que interagem com as leis. Ele aponta que cada sociedade possui suas leis e se ajustam à crenças e costumes, interferindo na hermenêutica jurídica. No capítulo em questão o autor analisa o direito como um fato cultural, ou seja, segundo Geertz o direito é desenvolvido em uma relação direta com os contextos culturais. A partir da leitura observamos que o autor desenvolve as seguintes teses:
  • uma análise do direito a partir da visão da antropologia interpretativa;
  • aborda o direito como um fato cultural em inteira conexão com os contextos culturais nativos;
  • há um choque entre antropologia jurídica e antropologia cultural;
  • o direito é um saber local, portanto, mais que leis e ainda submisso ao relativismo cultural;
  • necessidade de ir e vir hermenêutico entre o direito e o campo da antropologia e etnografia;
  • por fim ele demonstra que que o direito precisa de acomodar ao saber local, pela constante necessidade das nações em criar jurisprudência;
No entendimento de Geertz o direito é uma das maneiras de imaginar o mundo em meio a tantas outras, com a arte e a religião. Sendo que com o direito há uma representação normativa, imaginando como devam ser as coisas (leis) e como elas são (fatos), desenvolvendo um sentido de justiça que é sempre específico, ou seja, “local”, dependendo de como se relacionam fato e lei nos diferentes contextos culturais. Para reforçar esse pensamento o autor cita o caso da Toyota e da Ford diante das leis antipoluição. Uma contratou mais engenheiros e outra mais advogados.
Assim para reforças ainda mais a sua tese e chamar a atenção do leitor para a antropologia interpretativa cultural, como recurso de análise e para facilitar a interação entre o direito, as leis e a cultura nativa, o autor evoca três termos de culturas diferentes:
  • Haqq – para os Islâmicos quer dizer verdade;
  • Dharma – para os Índicos quer dizer dever;
  • Adat – para os Malaios que dizer prática;
Após a leitura do capítulo percebemos que estes três termos possuem outros significados, e que todos culminam com o sentido de “justiça” do direito Romano. O objetivo do autor ao abordar esses três termos é demonstrar que o conceito de justiça passa por várias significações, abrangendo o campo da moral, religião … Por fim, todos esses conceitos passam pela representação, logo dependem da visão de mundo desses povos.
Segue o capítulo do livro para aqueles que se interessarem: O saber local fatos e leis numa perspectiva comparativa
RESENHA

Capítulo 8 "O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa" 

Jailson Estevão dos Santos[1]

  1.  APRESENTAÇÃO DO AUTOR E DA OBRA
 GEERTZ, Clifford James. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Tradução de Vera Mello Joscelyne. 7 ed. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 2009.

*Do autor: USA 23/08/1926 – 30/10/2006). Antropólogo, encerrou sua carreira de professor em Princeton. Realizou estudos na Indonésia. É considerado o fundador da Antropologia Hermenêutica (Interpretativa ou Simbólica).

  1. BREVE SÍNTESE DA OBRA
            O autor analisa a questão do direito a partir do ponto de vista da antropologia interpretativa e dos fatos sociais que interagem com as leis. Destaca que cada sociedade tem suas leis e estas se ajustam às crenças e costumes, interferindo na hermenêutica jurídica e, portanto essa relação deve ser considerada.
            No capítulo oito Geertz analisa o direito como um fato cultural, tal qual a arte e a religião, e considera que o mesmo é desenvolvido numa relação direta com os contextos culturais.        Ao abordar os valores permissivos de uma cultura em relação às práticas de outras, comenta que nem o direito avançou nas questões antropológicas, nem a antropologia e etnografia com as questões jurídicas (p. 250, 251).   O autor afirma que há uma necessidade de um “ir e vir” hermenêutico entre o direito e o campo da antropologia e etnografia. (p. 253)
            Os fatos e sua natureza (φίσις – νόμος – natureza e lei) tem sido objeto foco da atenção de preocupação jurídica, pois já não “parecem realidades tão puras”. O foco de atenção gira em torno da “explosão dos fatos, temor aos fatos e esterilização dos fatos”. (p. 254)
            Os fatos sociais que requerem interação com atos jurídicos indiciam aos juízes de que já não basta conhecer somente as leis. (p.255). Por outro lado precisa-se ter cuidado com as jurisprudências, pois essas podem afastar os fatos da discussão, deixando-os ao juízo dos “guardiões da lei”. (p. 257).     Geertz cita como exemplo o livro Incommon Law, de Alen Patrick Hebert, Londres 1970 p. 350. (p.256), uma sátira ao livro Commom Law (jurisprudência - diferente de leis criadas por legislação).           Afirma que o que ocorre nos tribunais é o fenômeno que é “a base de toda cultura: isto é o processo de representação”. (p.259)
            Para Geertz, descrever um fato para que o mesmo se submeta à defesa do advogado, à audição do juiz e à solução dos jurados, é representá-lo. Considera que o direito muda, conforme a época e o lugar, então os fatos também se modificam.     Para o direito é norma a representação dos fatos, portanto, (...) o  problema fundamental é descobrir como representar aquela representação. (p. 260). Geertz acha isso difícil e compreende que talvez “se espere por desenvolvimento na teoria da cultura”. Mas a sugestão mais viável segundo ele, é considerar a linguagem lógica do “se então” e “como, portanto” dos casos concretos (p. 260).            Por esse ângulo, busca-se diferenciar leis e fatos, e, então, o direito não é algo como uma lei espiritual, nem uma receita, mas pode-se imaginá-lo como uma exibição num mercado público: à vista de todos, accessível a todos, e susceptível ao saber local. (p. 261)
            Para lembrar como a prática do Direito muda de acordo com cada cultura, Geertz  coloca:
1º) Um comentário de que “ao deparar-se com as leis de antipoluição, a Toyota contratou mil engenheiros e a Ford mil advogados”. (p. 261)
2º) Um caso de um balinês que ele chama de “Regreg” que teve sua esposa levada por outro homem da aldeia, e que mesmo tentando uma solução perante o conselho local, não obteve êxito, pois as leis locais não previam soluções para esse tipo de “problema”. Mais tarde, quando era a sua vez, por obrigatoriedade, de assumir o cargo de um dos chefes do conselho, ele rejeitou e como consequência foi completamente abandonado ao extremo. Ainda mais tarde, o mais importante chefe político da Indonésia, considerado um deus, veio ali intercedeu por Regreg, argumentou perante os conselheiros mostrando-lhes o mundo moderno, mas ouviu a resposta: “vá plantar batatas”. (p. 267)
      No caso relatado do “Regreg” a crença popular é mostrada como superior a qualquer coisa. Apositivamente é lembrado pelo autor que “a teimosia de Regreg nunca chegou a ser considerada como uma ameaça à ordem pública e sim à etiqueta pública” (p. 270)
      Por questões como as citadas, Geertz tenta despertar a atenção do leitor para o que ele chama de antropologia interpretativa cultural como um recurso de análise que possa facilitar a interação entre o direito, as leis e a cultural autóctone. Considera a “declaração de fé” adaptada por P. H. Guliver e sugerida por Max Gluckmand nas conferências Storr, de que “são os processos sociais que, em grande parte, determinam o resultado de uma disputa e não a análise dos processos de raciocínio através dos quais se dá prosseguimento às negociações”. (p. 273). Aqui, a base é a fusão ontológica entre o normativo e o real (p.281).
Três termos são evocados pelo autor provenientes de culturas diferentes: haqq (verdade para os islâmicos), dharma (dever para os índicos), e adat (prática) para os malaios. Além desses significados esses termos podem significar muito mais em cada uma das dessas culturas e, que por fim, culminam com o sentido de “justiça” no direito romano.  Eles são lembrados para mostrar que o conceito de justiça trilha por várias outras significações que abrangem campos como moral, religião, ontologia, etc. e todos esses conceitos passam pela representação e, portanto, subjazem ao relativismo cultural, ou seja, dependem da visão de mundo desses povos.
O especialista em sânscrito J. Gonda diz que dharma (lei dever e direito) é intraduzível. (p. 296)
O autor cita um caso de julgamento idêntico ao que Salomão, rei de Israel, teve que enfrentar – Um caso de ciúme que culmina o estrangulamento de uma criança – Julgado como um “ato tão adharmico” (p.310). Neste caso, o adat aplica-se menos pela lei e mais pelo próprio comportamento do indivíduo.
Contudo, o autor deixa claro que a busca da verdade é um exercício retórico. Em suma, o direito é saber local muito mais que “pretensões encobertas pela retórica acadêmica”. (p. 324). Então o direito é construtivo, constitutivo e formacional (p. 329)
A tese de Geertz, de que o direito é saber local, e, portanto, mais que leis, e ainda  submisso ao relativismo cultural, é expressa no final do capítulo assim:
O direito, com o seu poder de colocar acontecimentos específicos – um compromisso aqui, uma injúria acolá – em uma moldura geral de uma maneira tal, que as normas que regulam um gerenciamento adequado e probo desses acontecimentos pareçam surgir naturalmente dos elementos essenciais do seu caráter, é um pouco mais que um reflexo da sabedoria herdada, ou uma técnica para a resolução de conflitos. Com razão ele atrai para si o mesmo tipo de paixão que aqueles outros procriadores de significados e propositores de mundos – a religião, a ideologia, a ciência, a história, a moral e o senso comum – atraem.  (...) O que está em risco, portanto, ou julga-se estar em risco, são as próprias concepções sobre o que é fato e sobre o que é a lei, e a relação que existe entre elas – a sensação sem a qual os seres humanos mal podem viver, quanto mais adjudicar seja lá o que for, de que a verdade, o vício, a mentira e a virtude são coisas reais, distinguíveis e estão alinhadas em seus devidos lugares”. (p. 349)



  1.  PERSPECTIVA TEÓRICA DO CAPÍTULO ESTUDADO
Teoricamente o autor parte da análise de questões do Direito e da Antropologia Cultural, entendendo que dentro do Direito cabe uma análise antropológica hermenêutica. Usa as seguintes bases teóricas: Deve haver um “ir e vir” entre direito, antropologia, etnografia e hermenêutica jurídica e cultural.  Para tanto dialoga com autores como, entre outros: O. Holmes Jr.; Blackmum; A. P. Herbert em Incommom Law (Londres 1970 p. 35) (p. 256).; J. Frank (p. 258); Grant Gilmore (p. 268); Frank O’Hara citado por afirmar a importância do subjetivismo poético como incentivo à prática, em relação ao direito. (p. 273); W. C. Smith (2. 282); H. W. Wolson (p. 284); Jeanett Wakin que trata da “palavra empenhada” como instituto cultural... (p.286); Wittgeinstein que é como ele mesmo diz o “santo padroeiro” de sua teoria (p.325).

  1.  PRINCIPAIS TESES DESENVOLVIDAS NA OBRA
a)      Análise da questão do direito a partir do ponto de vista da antropologia interpretativa.
b)      Análise do Direito como um fato cultural em inteira conexão com os contextos culturais autóctones.
c)      Há um choque entre a antropologia jurídica e a antropologia cultural.
d)      Necessidade de um “ir e vir” hermenêutico entre o direito e o campo da antropologia e etnografia.
e)      O direito é saber local e, portanto, mais que leis, e ainda submisso ao relativismo cultural.
f)       Uma prova de que o direito precisa se acomodar ao saber local é que constantemente em todas as nações precisam-se criar jurisprudências.

  1. REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A OBRA E IMPLICAÇÕES
            Uma crítica é relativa à tradução. Contudo, há um aspecto positivo, o título que literalmente traduzir-se-ia como “conhecimento local” é traduzido como “saber local” uma interpretação adequada considerando que “o conhecimento” sob do ponto de vista epistemológico exige uma análise científica dos fatos, enquanto “saber” remete a provas demonstrativas mais práticas e, portanto, ligadas ao senso comum, focando “as coisas como são” e “porque são”.
            Por outro lado algumas construções sintáticas e longos parágrafos dificultam uma compreensão imediata criando campos semânticos de amplitude variada.
            É um capítulo cuja leitura exige do leitor uma aguçada atenção, sob a pena de perder o fio conectivo entre um parágrafo e outro. Especialmente quando o autor faz referência ao significado das palavras haqq (verdade para os islâmicos), dharma (dever para os índicos), e adat (prática) para os malaios, quando o mesmo se apresenta bastante prolixo.
            Não está objetivada a posição do autor quanto sua inserção nos “processos sociais” e/ou nos processos de raciocínio como definidores de jurisprudências. Mas por outro lado, não foi sua intenção emitir qualquer juízo de valor e sim abordar e discutir a questão da interferência do “saber local” nas questões jurídicas.
            Não é apenas o universo jurídico que está se expandindo e tendo que se acomodar às convulsões modernas. De modo geral tudo e todos estão experimentando isso. (p. 325)
            De modo geral o texto indica que o direito ultrapassa as leis.
 
Clifford Geertz. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Tradução de Vera Mello Joscelyne. Petrópolis, Vozes, 1997, 366 pp.
 
"Afirmar que Clifford Geertz é um nome conhecido na antropologia brasileira hoje é reiterar o óbvio. Já na graduação os alunos de Ciências Sociais entram em contato com os textos deste antropólogo americano, pioneiro no desenvolvimento da antropologia "interpretativa" que, em diálogo com a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur, marcou indelevelmente os rumos da disciplina a partir dos anos 70, desencadeando direta ou indiretamente o fortalecimento da chamada "antropologia pós-moderna"."
 

Referências:

Que Barulho é Esse, o dos pós-modernos? Wilson Trajano Filho.






  • Que Barulho é Esse, o Dos Pós-Modernos? WILSON TRAJANO FILH01 - Desde a institucionalização da antropologia nas universidades britnicas e americanas na virada do século tem-se buscado urna metáfora, urna palavra-chave que sintetize tanto o fazer antropológico quanto seu objeto de estudo: sociedade e cultura. Poucos exemplos são aqui suficientes, não obstante a extensão da lista: sociedade como organismo vivo (Radcliffe-Brown), antropologia como tradução (Evans-Pritchard), cultura como o superorgnico (Kroeber), cultura como texto e antropologia como interpretação (Geertz). Tal lista sugere, por sua diversidade, o paradoxo de ser o fazer antropológico saudavelmente dinmico, mas caracterizado por uma multiplicidade de abordagens e perspectivas nem sempre complementares, experienciando uma espalhada sensação de crise permanente. Recentemente uma das linhas de frente do debate antropológico, aquela conduzida pela federação interpretativa americana, tem proposto uma série de novas metáforas para a antropologia: diálogo, polifonia, evocação... Tais metáforas assim como a federação que as propõe está presentes no volume Writing Culture editado por James Clifford e George Marcus.* Trata-se de uma coletnea de ensaios, apresentados originalmente num seminário em Santa Fé, cujo tema central gira em torno do escrever etnográfico. Seus atores são James Clifford, Mary Louise Pratt, Vincent Crapanzano, Renato Rosaldo, Stephen Tyler, Talal Asad, George Marcus, Michael Fischer e Paul Rabinow. Para quem não está familiarizado com esta troupe antropológica dou com uma pequena mas vital informação: com ex 1. Durante a elaboração desta resenha, o autor era bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). * CLIFFORD, James e George E. MARCUS (orgs.). Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography. Berkeley: University of California Press, 1986, 305 pp. Anuário Antropológico/86 Editora Universidade de Brasília/Tempo Brasileiro, 1988 133
  • Wilson Trajano Filho seção de Talai Asad, que atua como astro-convidado da tradição britnica, de Mary Pratt, vinda da teoria literária e de Stephen Tyler, um renegado da finada etnociência, todos os outros autores se ligam direta ou indiretamente à figura de Clifford Geertz. No ensaio introdutório Clifford afirma que não há a pretensão, por parte deste grupo de autores, de se constituir como uma escola ou mesmo uma tendência (1986:4). De fato, apesar de Writing Culture ser uma espécie de variação sobre alguns temas constantes, a forma de abordá-los a relativamente diferenciada e internamente desigual. Por outro lado, os constantes diálogos e referências - implícitas e explícitas - a Geertz (ver o ensaio de Rabinow:242) parecem sugerir ser este grupo parte integrante de uma frente interpretativa que envolve, entre outros, filósofos, historiadores e críticos da cultura, e que tem, na sua vertente antropológica, Geertz como cabeça de linhagem. Parece se aplicar bem aqui uma outra metáfora: antropologia como estrutura segmentária (Sindzingre, 1986). A vertente antropológica da federação interpretativa afirma-se enquanto tal através de sua oposição a outras vertentes antropológicas de outras federações (a materialista, a estruturalista, etc.) e através de oposições internas que a organizam. Duas perguntas se mostram como óbvias aqui; como se constituem, a nível teórico, as oposições entre o clí interpretativo e os outros clís? Quais são as oposições significativas no interior do clí interpretativo? Respostas a estas questões, no espaço de uma resenha, seria sempre incompletas e susuperficiais. No entanto, me atrevo e as esboço: o clí interpretativo se distancia dos outros pelas críticas que faz ao positivismo científico, as diversas formas de reducionismo e ao empiricismo ingenuo, e pela defesa de urna postura humanísta para o fazer antropológico e do caráter provisório e parcial de toda análise cultural. Quanto as oposições internas que o segmentam, creio que a mais significativa é aquela que, pela crítica da representação, faz surgir urna noção mais sofisticada de texto em oposição ao texto de Geertz. é exatamente a partir de uma elaboração crítica da noção de cultura como texto que temas tais como a autoridade científica e etnográfica, a crise da representação, recursos retóricos e fazer etnográfico, diálogo e polifonia, poder e dominação, entre outros, são objetos de reflexão em Writing Culture. Tendo, pois, iniciado substantivamente a leitura do livro através da identificaçíão de seus temas principais e de sua localização no debate entre as escolas, devo agora ser cauteloso acerca dos rumos a tomar. Primeiro, devo fazer justiça ao livro. Trata-se de uma coletanea importante e provocativa que recupera o fazer textos como uma dimensão esquecida no debate antropológico134
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modemos? Porém, mais do que recuperar esta dimensão, o livro denuncia e critica a ideologia da transparência da representação e da imediaticidade da experiência cujas consequências, entre outras, são reduzir o fazer etnográfico a uma simples questão de método e criar um modo de autoridade etnográfico que pretende ser factual e incontestável, quando na realidade é puramente retórico. Além disto, Writing Culture saudavelmente advoga uma concepção abrangente para a etnografia, uma dimensão ética para o fazer antropológico e uma ênfase nas instâncias específicas do discurso, em vez do foco na representação do mundo. Finalmente, o livro incentiva a experimentação na construção das etnografias, propondo o modelo do diálogo que sempre conduz a explicitação das diversas vozes que falam e do contexto das falas. Contudo, a riqueza e a importância de uma obra está intimamente associadas a consciência de seus limites, e estes, em Writing Culture, não são tío largos quanto pensam os seus autores. No que se segue farei uma resenha breve de cada um dos ensaios, apontando para o que acredito ser contradições, deficiências e mal-entendidos. Ao final elaborarei uma crítica externa, mas não sistemática, apontando para os limites do livro. Leio Writing Culture como uma coletanea que se organiza em quatro seções básicas. A primeira seção é constituída pelos ensaios de Pratt, Crapanzano e Rosaldo. Nela, os autores buscam denunciar e desmistificar o estilo realista das etnografias clássicas, focalizando temas como a constituição da autoridade do autor da etnografia e os recursos estilísticos utilizados para tal. O segundo grupo é formado pelos ensaios de Clifford e Tyler, os quais se caracterizam por uma reflexão sobre as possibilidades e os limites do conhecimento antropológico contemporaneo e por sugestões de caráter mais geral e teórico para o alargamento destes limites. Os ensaios de Marcus e Fischer compíµem a terceira seção, que é dedicada ao exame de formas concretas e existentes de experimentação em etnografia. Finalmente, os ensaios de Asad e Rabinow e as conclusões de Marcus apontam para o tema mais sociolí³gico da relação entre o experimentalismo e as condições de poder e dominação. Nisto minha leitura está bastante prí³xima da dos editores do livro, com exce ção do ensaio de Asad, que vejo como parte integrante da seção final cujo te ma é o poder, enquanto os editores provavelmente o localizariam na primeira seção. Por fim, devo advertir que muitas das minhas qualificações e críticas não são textuais, mas sim baseadas no que os diversos ensaios evocam. Afi nal, trata-se de uma coletanea de ensaios, uma forma que é tipicamente evo cativa. 135
  • Wilson Trajano Filho O ensaio de Mary Louise Pratt, €œFieldwork in Common Places", é dedica do ao exame de como narrativas pessoais e descrições impessoais se arti culam nos textos etnográficos. através da leitura de crí´nicas de viagem (Sta- den, Burton e outras) e de etnografias clássicas (Nuer, Tikopia e outras), mostrando certas similaridades estilísticas entre elas, Pratt argumenta que a articulação de narrativas pessoais com descrições impessoais objetivantes sempre foi uma prática em uso nas crí´nicas de viagem, não sendo, portanto, uma invenção dos etní³grafos clássicos. Daí, prossegue ela, ser falso, pelo menos a nível do texto, estabelecer uma ruptura e uma descontinuidade entre estes dois gíªneros. Pratt ainda detecta uma assimetria na articulação narra- ção-descrição nas etnografias. Ao contrário das crí´nicas de viagem, onde os dois modos tíªm aproximadamente a mesma importância, quando não é o caso da narrativa ser mais valorizada do que a discussão, as regras da convenção etnográfica colocam sempre a narração como subordinada, confiando-a aos reduzidos espaços das introduções e prefácios. Nestes reduzidos espaços, a figura do pesquisador de campo é mistificada, questionada e ironizada, mas sempre de modo implícito. Como Pratt diz: €œnunca se toca na inexplicabilidade e injustificabilidade da presença do etní³grafo segundo a perspectiva nativa€ (:42). A coexistíªncia, embora assimétrica, de narrativa e descrição no texto etnográfico é explicitada entío como uma forma de mediar a contradição que existe no interior da disciplina entre autoridade pessoal e autoridade científica, entre a prática subjetivante e a objetivante (ver também o ensaio de Clifford: 109). Pratt examina ainda a etnografia de Shostak, Nisa: The Life and Words of a IKung Woman, como uma experiencia bem-sucedida de fundir estas duas práticas. A questão da autoridade etnográfica é apenas denunciada, mas nun ca elaborada em profundidade. é injusto criticar em um texto aquilo que ele não se propíµe a desvendar. Porém, a questão da autoridade etnográfica seria melhor compreendida se não fosse uma equação mal articulada por Pratt. Afirmar a continuidade entre a etnografia e as crí´nicas de viagem somente pelas semelhanças entre os dois gíªneros no que se refere a articulação de narrativa e descrição é um movimento lí³gico com poucos fundamentos. To mar a cena de chegada de Firth entre os Tikopia e compará-la com a chegada de Bougainville ao Taiti dá um certo poder de convencimento ao seu argu mento, mas este é basicamente retí³rico. Pratt é muito feliz nos seus exem plos, mas mesmo correndo o risco de ser taxado de positivista, por usar o ar gumento básico da falsificabilidade, lembro de memí³ria que não existem ce nas de chegada em outras tantas etnografias clássicas como a de Fortes en- 136
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modernos? tre os Tallensi, a de Turner entre os Ndembu, a de Gluckman entre os Barot- se, etc. Este meu argumento não falsifica o de Pratt, mas no mínimo sugere a necessidade de certas qualificações. Há ainda uma questão de nivel mais ge- ral que está implicada no argumento de Pratt sobre a não-descontinuidade en tre etnografia e crí´nicas de vlagem. Esta questão, típica da problemática iden tidade/diferença, refere-se a concepção do que vem a ser etnografia. Mais detalhes na íºltima parte desta resenha. O segundo ensaio dá continuidade ao tema geral discutido por Pratt: é o texto de Vincent Crapanzano, €œHermes€™Dilemma: The Masking of Subven- sion in Ethnographic Description€. Comparando o etní³grafo ao deus grego Hermes - o mensageiro que dá sentido ao seu sentido - Crapanzano nota que eles dividem o mesmo problema: tornar seus textos convincentes. A dife rença é que Hermes fez a promessa de jamais mentir, sem que isto signifique contar toda a verdade, enquanto o etní³grafo, pelo menos na versão clássico- realista, parece que não chegou a perceber o verdadeiro conteíºdo desta pro messa. Esta questão da parcialidade e da provisoriedade da interpretação cultural leva Crapanzano a discutir as estratégias empregadas pelos etní³gra fos para convencer os leitores e, provavelmente a eles mesmos, da precisão e da verdade de suas descrições, o lugar do etní³grafo no texto etnográfico e a construção de sua autoridade através de artifícios retóricos. Tal exame é feito através da leitura dos textos de Catlln (um pintor americano do século passa do) sobre uma cerimí´nia dos índios Mandan, de Goethe sobre o carnaval ro mano e de Geertz sobre a briga de galos. Novamente vale chamar a atenção para a definição implícita de etnografia. Crapanzano lista os elementos que constituem a autoridade do etní³grafo: €œsua presença nos eventos descritos, sua capacidade perceptiva, sua pers pectiva desinteressada, sua objetividade e sua sinceridade€ (:53). Contudo, ele nota que a constituição da autoridade é apenas uma das estratégias de que o etní³grafo lança mío para tornar seu texto convincente. Além desta, ele se utiliza de figuras retí³ricas específicas. Sua leitura dos tríªs autores é inter namente convincente e sua conclusão é que os dispositivos retóricos €œusados para convencer os leitores acerca de suas descrições acabam por tornar as íºltimas suspeitas€ (:53). Assim, a figura da hipotipose no texto de Catlin im possibilita o realismo pretendido, pois este íºltimo requer uma certa sobriedade estilística. Goethe, através do uso de demonstrativos diretos, apela aos leito res para se juntarem a ele, mas não os participantes do carnaval romano. O contato de entrada da briga de galos de Geertz dá a ilusão de especificidade, de uma briga particular, quando não há, na realidade, nenhuma perspectiva 137
  • Wilson Trajano Filho especifica. Tudo que há é a autoridade construída a partir da declaração €œesti ve lဝ , declaração que não se faz mais ouvir aPós o conto de entrada. Isto se explica pelo ato de ser a presença do etní³grafo nos tríªs textos meramente uma presença retí³rica, uma presença que subverte os eventos descritos pela via da máscara da autoridade do etní³grafo/autor que se localiza acima e atrás daqueles cuja experiíªncia deveria ser descrita (:76). O ensaio de Crapanzano é líºcido e rico em detalhes de análise. Mas não consigo evitar uma suspeita, uma indagação e uma admiração. Minha sus peita é de que a estratégia adotada por Crapanzano, em suma a mesma de Pratt, não permitiria generalizar, como ele faz, sobre as formas de tornar um texto convincente. Daí vou um pouco mais longe especulando se a definição ampla do que é etnografia não teria facilitado tal generalização. Afinal, os tríªs autores examinados por Crapanzano são antes de mais nada bons escritores que tratam o idioma literariamente. Minha indagação: se a interpretação cultu ral é provisí³ria e parcial, como entío resolver problemas de verificação e jul gamento, se é que tais problemas são significativos neste contexto em que as verdades são parciais. Crapanzano não trata desta problemática e nem estou eu a cobrar dele qualquer resposta. Seria injusto. Porém, esta é uma proble mática que não é enfrentada em Writing Culture, embora esteja sempre se fa zendo presente pela ausíªncia.2 Finalmente, fico admirado pelo fato de Cra panzano ser mais critico de Geertz do que de Catlin e Goethe, quando seria de esperar o contrário. Por quíª? Por razões sociolí³gicas ou psicolí³gicas? Ensaio uma resposta no devido momento. O ensaio €œ From the Door of His Tent: The Fieldworker and the inquisitor€, de Renato Rosaldo, dá continuidade a crítica aos cí¢nones tradicionais do es crever etnográfico através da leitura de dois textos etnográficos: Montaillou de Ladurie e, mais uma vez, Os Nuer de Evans-Pritchard. O livro de Ladurie analisa a vida em uma aldeia francesa no século XVI através dos registros deixados pelo inquisidor bispo Jacques Fournier. Isto fornece a Rosaldo o pretexto para uma infeliz, mas oportuna, no contexto do livro, comparação entre o etní³grafo, enquanto pesquisador de campo, e o in quisidor. Infeliz porque os termos está invertidos. No caso em questão é o inquisidor que se assemelha ao pesquisador de campo. Como não se trata de uma relação de identidade, a ordem dos termos é de muita importância. Por 2. Exceç&o é a introdução de Clifford, onde tal questão é mencionada e logo a seguir aban donada (op. cit: 25). Taylor, 1979 discute tal problemática segundo a mesma perspectiva interpretativa 138
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modemos? outro lado, é uma comparação oportuna porque vai articular a prática da pes quisa de campo (a do inquisidor é í³bvia) com as relações de poder e domina ção. Apesar da incontestabilidade de suas conclusões-deníºncias, a associa ção do pesquisador de campo com as relações de poder e dominação merece algumas qualificações que evitem mal-entendidos e reducionismos. é muito simplista afirmar como Rosaldo o faz que: €œa seção introdutí³ria de Os Nuer se assemelha com a de Montaillou pois realiza o trabalho de separar retorica mente o contexto da dominação colonial da produção do saber etnográfico" (:93). Além desta sentença ser ambigua, dando a impressão de que os al deões franceses do século XIV viviam uma situação de dominação colonial, acontece de novo uma inversão: na realidade, é Montaillou que se assemelha aos Nuer. A forma como Rosaldo discute o tema da autoridade etnográfica acres centa algo as discussões de Crapanzano e Pratt. Como estes dois íºltimos, Rosaldo afirma que um dos elementos constitutivos da autoridade é a presen ça do pesquisador de campo nos eventos descritos. Como Crapanzano, Ro saldo também afirma ser esta um apresentar-se que se esconde e se nega. é neste ponto que seu ensaio acrescenta uma distinção que acredito ser im portante na discussão do tema da autoridade etnográfica. Rosaldo nota que a figura do autor pode ser analíticamente desconstruída em tríªs funções que separam €œa) o indivíduo que escreveu a obra, b) a pessoa textualizada do nar rador, e c) a pessoa textualizada do pesquisador de campo€ (:88). Assim, o pesquisador de campo, ao aparecer na introdução das etnografias, deixa claro os laços entre sua pessoa e os contextos de dominação, mas nega as cone xões entre poder e saber, ao desaparecer aPós a introdução. A descrição do narrador acerca das durezas do trabalho de campo confere ao texto um ar de realismo que faz o autor aparecer como uma pessoa honesta, o que aumenta a credibilidade do texto. O realismo da narração é obtido ainda através de re cursos retóricos tais como a nominação de lugares e pessoas, apresentação de mapas, censos, datas e estatística, e o falar por ausíªncias. Rosaldo chama a este estilo €œmodo pastoral literário€ . é um modo que se caracteriza pela cortesia nas relações que cortam fronteiras sociais, tal como na relação de Evans-Pritchard (indivíduo, pesquisador e narrador) com os Nuer, ou Ladurie (indivíduo e narrador) e Fournier (pesquisador) com os al deões franceses. é um modo adequado para Ladurie e Evans-Pritchard, pois tanto os Nuer quanto os aldeões franceses simbolizam o ponto onde a verda de neutra da etnografia pode encontrar-se consigo mesma. Este ponto abs trato está Além de toda dominação, pois a cortesia do modo pastoral justifica, 139
  • Wilson Trajano Filho mas ao mesmo tempo trai, os esforços do narrador em suprimir as conexões do pesquisador de campo com as relações de poder. Rosaldo dá ainda um passo adiante na sua deníºncia do modo pastoral. Estando as figuras textuaii- zadas do narrador-pesquisador num contexto onde as relações de cortesia parecem transcender a desigualdade e a dominação, resulta fácil a cortesia tornar-se respeito e admiração e daí, facilmente cair na condescendíªncia e reveríªncias pela simplicidade dos Nuer ou dos aldeões franceses. Este modo, entío, desistoriza as culturas (ver também o ensaio de Clifford: 110-160). Os ensaios de Pratt, Crapanzano e Rosaldo denunciam que, pela via dos artifícios retóricos, o texto construído da etnografia, que se pretende convin cente, verdadeiro e objetivo, ora esconde ora passa ao largo de questões tais como a articulação da subjetividade do autor com a das pessoas pesquisa das, o contexto sociolí³gico onde se dá o encontro etnográfico e as limitações que este contexto impíµe ao saber antropológico. Ficaram algumas perguntas no ar que serío retomadas no devido momento. €œPós-Modern Ethnography: From Document of the Occult to Occult Do cument€ de Stephen Tyler é um ensaio aforístico que, usando um procedi mento quase dialético, discute a natureza daquilo que ainda está por vir: a et nografía Pós-moderna. através da crítica a ciíªncia, suas formas de linguagem, sua aliança com os discursos do valor e do trabalho e seu distanciamento da praxis, Tyler desvenda um contexto sí³co-cultural - o mundo Pós-moderno - no qual os fundamentos da ciíªncia como representação e como conhecimento universal não mais operam enquanto tais. Tyler reserva para a etnografia uma importância especial pois ela é, neste novo contexto do mundo Pós-moderno, €œuma forma superior de discurso ao qual todos os outros discursos são relati- vizados e no qual todos eles encontram seu sentido e sua justificação€ (:122). Seu modo de ser não se apresenta pela via da descrição nem da ação, metá foras para o discurso da representação (ciíªncia) e do trabalho (política e eco nomia). A etnografia Pós-moderna tem na evocação o seu modo privilegiado de ser, ela evoca €œaquilo que não pode ser conhecido discursivamente ou executado perfeitamente" (:123). O que Tyler tenta abordar é uma forma de se aproximar do indizível, daquilo que é concebido mas nunca esgotado na linea ridade do pensamento, as sentenças e da palavra escrita. Além disto, Tyler sugere ainda que se resgate a dimensão ética de todo discurso e a incorpore na etnografia Pós-moderna, pois esta é um discurso de muitas vozes que evoca uma fantasia que rompe com o mundo do senso comum. No entanto, tal ruptura com o senso comum não é realizada com o intuito de abandoná-lo. Pelo contrário, trata-se de restaurá-lo. 140
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modernos? Pois sendo entío a etnografia Pós-moderna €œum começo de urna nova jomada€ (:140), resta-me perguntar: para onde, em que condições, por quanto tempo, quem viaja e quanto custa? Tyler não se faz ouvir agora, sua voz se cala esperando, quem sabe, que o fluxo do seu discurso imediatamente ante rior ecoe, evocando o leitor uma resposta. Porém, estar em silíªncio ante estas perguntas não significa estar mudo definitivamente. Pelo contrário, o texto de Tyler é bastante eloqí¼ente na utopia que vislumbra e promete: um mundo ludi- camente fragmentado, sem sujeitos e objetos, um mundo Além da dominação no qual um madrigal a muitas vozes é repetidamente executado num espaço transcendente, cuja acíºstica reforça reflexões, reverberações e ecos - fun damentos da fantasia, incitadores da evocação. Mas há aí algo verdadeiramente espantoso, tío logo se percorra as trilhas deixadas pela evocação. Este mundo vislumbrado, assim como o discurso que o revela - a etnografia Pós-moderna - não são absolutamente novidade alguma no horizonte do homem e nem está por vir, como argumenta Tyler. Na vida dos homens eles já se encontram há séculos, embora cobertos por um termo pré-moderno: religiío. não penso aqui na religiío que estabelece a ordem (social, cultural, cognitiva, emotiva, etc.), mas naquela que nos sus pende e nos descansa; a religiío como perspectiva restauradora do senso comum (Geertz, 1973:122 e Tyler:134). Asad, em uma interessante crítica a Geertz, argumenta que tal posição levaria a um paradoxo. O mundo do senso comum é pensado por Geertz como íºnico, enquanto a religiío (seus símbolos, crenças e práticas) é míºltipla, variando de acordo com as culturas. Contudo, se a religiío restaura o senso comum, modificando-o, ela também confere a ele a multiplicidade que a caracteriza, desfazendo, assim, o seu caráter uni versal (Asad, 1983:250). A crítica de Asad a Geertz aplica-se também ao ar gumento de Tyler de que a etnografia Pós-moderna restaura o senso comum. Afinal, uma etnografia, mesmo Pós-moderna, escrita por um antropí³logo ame ricano sobre os índios Karajá vai restaurar o senso comum de quem, dos Ka- rajá, dos Estados Unidos, do Brasil do antropí³logo? é de fato espantosa a relação que descubro entre religiío e etnografia Pós-moderna no texto de Tyler. Espantosa porque depois de os positivistas do século passado sonha rem com o fim da religiío, com a sua ultrapassagem pela ciíªncia, assiste-se agora a um movimento inverso, onde um antipositivista propíµe e anuncia, com um certo alarde até, a morte da ciíªncia e a sua sucessão pela etnografia Pós- moderna, ou, mais ao gosto tradicional, pela religiío. Por ser rico e provocante, o ensaio de Tyler chama por reflexões críticas de várias ordens. Trata-se de um texto que tem muito de evocativo e pouco de 141
  • Wilson Trajano Filho analítico. O mundo Pós-moderno é afirmado a partir da crise da ciíªncia, e a partir de sua afirmação, uma nova forma de discurso etnográfico. Contudo, a prí³pria afirmação do universo Pós-moderno me legitima a indagar: é ele um mundo historicamente construído? Se afirmativo, continuaria sociologicamen te: onde? quando? como? No entanto, estas questões são somente uma de corríªncia visível de uma problemática mais geral. O ensaio de Tyler é impor tante porque busca recuperar para o fazer antropológico uma noção antiga de verdade e saber como evocação. A evocação torna acessível aquilo que está nas bordas do indizível; ela torna presente a diversidade sem, contudo, nomeá-la e, portanto, sem esgotá-la. Mas porque não nomeia, apenas indica, porque não refere, mas aponta, a evocação não analisa, não separa e não classifica. não quero aqui dizer que o evocativo e o analítico sejam contradití³ rios por princípio, nem tampouco fazer a apologia da taxonomía e da análise. Na realidade, creio que a evocação e a análise podem e devem ser combina das no fazer etnográfico, e isto não passa de uma questão de habilidade. Contudo, o ensaio de Tyler, ao fazer a apologia da evocação, sacrifica o pen samento analítico e justifica tal sacrifício por uma condição sí³cio-cultural que anuncia e evoca, mas nunca analisa: o Pós-moderno. O ensaio de Clifford, €œOn Ethnographic Allegory", também é uma reflexão sobre o fazer antropológico contemporaneo. Nele Clifford examina a tendíªncia recente de ver no texto etnográfico diversos níveis alegí³ricos como vozes específicas. Esta tendíªncia, no interior do clí interpretativo, vem no bojo de uma reavaliação epistemolí³gica mais geral questionadora do saber como re presentação. Há nela um reconhecimento da alegoria e do texto etnográfico como alegí³rico que €œnos leva a dizer de qualquer descrição não que repre senta ou simboliza isto ou aquilo, mas que é uma estí³ria (moralmente carre gada) sobre isto ou aquilo€ (:100). E é exatamente o reconhecimento da alego ria (padrões de associação que apontam para significados adicionais), onde um nível de significação gera sempre outros níveis, todos eles igualmente sig nificativos, que conduz a uma nova concepção do texto etnográfico como a articulação e o fazer-se ouvir de muitas vozes. Algumas implicações decor rentes do reconhecimento da alegoria e da concepção do texto etnográfico como uma polifonia são mencionados por Clifford. Primeiro, a nova ênfase na pesquisa de campo como instí¢ncia geradora da etnografia. Ao contrário do que acontecia no clí realista, a ênfase agora é nos elementos intersubjetivos do encontro etnográfico. Decorrente disto, Clifford menciona simpaticamente as tendíªncias em incorporar narrativas pessoais e dar espaço para a fala dos 142
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modemos? informantes í±as etnografias. Terceiro, os problemas de generalizações que daí resultam. Clifford reconhece que as camadas de sentido não são infinitas. As pos sibilidades de leitura de um texto são dados pelos limites do horizonte histí³rico do leitor. No seu ensaio assiste-se um esforço para ultrapassar a textualiza- ção e a questão da autoridade do autor. Ele é simpático a idéia de um texto com muitas vozes, mas acaba tendo que reconhecer que mesmo como poli fonia a etnografia é um texto orquestrado por um autor. Daí desconhecer tam bém que o texto etnográfico não é sí³ alegoria. Nele há uma constante luta pa ra limitar os sentidos extras, luta que baliza as convenções da disciplina e do prí³prio gíªnero etnográfico. Em momento algum fica claro o que é exatamente esta luta. Obscuro como é apresentado, parece que este esforço limitante é realizado pelo prí³prio texto que passa entío a ser sujeito, objeto e contexto. Clifford, em certos momentos de seu ensaio, parece comungar com Tyler da utopia que este evoca. Os dois ensaios revelam a possibilidade de um mundo melhor, onde poder e hierarquia estejam totalmente separados. Evo cam um horizonte que está Além de toda a dominação, onde ninguém tem o poder de dar feição a estrutura final das estí³rias contadas coletivamente, nas quais todas as vozes são igualmente ouvidas. Denunciando o poder e a dominação, eles pregam uma democracia que, em certos momentos, chega a ne gar o poder, ficando, assim, muito semelhante ao modo pastoral que no livro é contestado. Tudo isto, argumento eu, porque falta uma perspectiva sociolí³gica aos dois ensaios. Como é constituído o mundo Pós-moderno, quando e por que surge a tendíªncia de reconhecer a alegoria e as consequências que dela resultam, são perguntas que nestes dois ensaios encontram respostas muito incompletas. A ruptura (ou não) do Pós-moderno e as novas tendíªncias expe rimentais na antropologia não são simplesmente o resultado de uma reavalia ção teórico-epistemolí³gica. são, sobretudo, adaptações e acomodações e mudanças no mundo social. A sociologia da mudança deveria ser, portanto, parte integral de toda e qualquer tentativa de responder as questões formula das acima. "Ethnicity and Post-Modern Arts of Memory€ de Michael Fischer e €œCon temporary Problems of Ethnography in the Modern World System" de George Marcus exploram formas concretas e existentes de experimentação em etno grafía. Especificamente, Michael Fischer analisa uma série de autobiografias étnicas, descobrindo nelas modos pelos quais a prática etnográfica poderia ser revitalizada. Ele argumenta que as perspectivas que tais autobiografias oferecem para o tema da etnicidade sugerem novos modos para escrever e 143
  • Wilson Trajano Filho ler etnografias. As autobiografias examinadas revelam para o leitor novas di mensões da etnicidade que não são sequer vislumbradas pelas abordagens sociologizantes, mostram ser a etnicidade algo diní¢mico, sempre reinventado e reinterpretado, orientado mais para o futuro do que para o passado. Além disto, elas exercem a função, sempre prometida pela antropologia, de crítica cultural, justapondo duas ou mais tradições culturais de tal maneira que o exí³ tico seja visto contra o pano de fundo do familiar e vice-versa. Fischer revela cinco estratégias estilísticas que, usadas nas autobiografias, realizam a tarefa da crítica cultural - transferíªncia, trabalho com sonhos, bifocalidade, interfe ríªncia e humor irí´nico. Segundo ele, tais estratégias podem e tíªm sido usa das como lições para o escrever e ler etnografias. Marcus procura mostrar alguns exemplos de como os etní³grafos de in clinação interpretativa podem articular no espaço descritivo das etnografias o domínio micro dos significados culturais com o domínio macro dos sistemas sociais abrangentes e impessoais. No corpo do ensaio, Marcus discute em detalhes dois modos de construir o texto, de modo a articular o local com o sistema social mais abrangente. O primeiro reduz-se a exploração etnográfica de situações e lugares diversos, mas ligados pelas consequências das ativi dades que ocorrem no interior de cada um deles. A narrativa seqí¼encial é o estilo adequado para este caso. Os temas privilegiados tíªm sido mercados, modos de produção, distribuição e consumo. O segundo modo, examinado com mais vagar a partir da leitura do livro de Paul Willis, Learning to Labour, é elaborado numa etnografia de um lugar ou situação estrategicamente selecio nado, sendo o sistema social abrangente tratado como pano de fundo, mas de tal modo que não se subestime a forma pela qual este íºltimo é constitutivo da vida cultural do primeiro. Marcus conclui que o desafio de articular a vida dos sujeitos com a natu reza do mundo da economia política tem na forma do ensaio moderno sua so lução mais feliz, isto porque o ensaio é uma forma que €œse recusa a Impor or dem, pela escrita, num mundo cuja essíªncia é ser fragmentado€ (:191). Os tríªs grupos de ensaios até agora examinados realizam, pela ordem, a deníºncia das convenções realistas, a fundamentação teí³rica de novas con venções, e a exempllficação de como estas novas convenções podem e es tío sendo postas em prática. No decorrer da resenha dos ensaios individuais, já apontei para os pontos que vejo como problemáticos e já elaborei uma críti ca interna parcial. Talvez tenha chegado a hora de passar a uma crítica mais geral e externa, pois o íºltimo grupo de ensaios que passo a resenhar, apa rentemente, nos leva a um novo tema: o do poder, da dominação e do político. 144
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modemos? não tenho como esconder que sou mais simpático a este íºltimo grupo, mas tenho o dever de dizer que, tanto os ensaios de Talal Asad, €œthe Concept of Cultural Translation in British Social Anthropology€, de Paul Rablnow, €œRepre sentations Are Social Facts: Modernity and Post-Modernity in Anthropology€, quanto o €œAfterword: Ethnographic Writing and Anthropological Careers€ de George Marcus, não são uma parte agregada artificialmente ao livro. Pelo contrário, eles simplesmente retomam a discussão da etnografia como texto sob um í¢ngulo que até entío havia sido apenas sugerido. O exame da noção de tradução cultural na antropologia brití¢nica leva Asad a questionar as metáforas tradução e texto, para antropologia e cultura, respectivamente, como modelos gerados e irremediavelmente envolvidos nas situações e relações de dominação em escala global. Seu argumento central é que o capitalismo industrial é também transformador de formas de saber, de estilos de vida locais e, com estes, de formas de linguagem. Daí, segue-se que existe uma desigualdade de poder entre os idiomas falados no mundo. Este poder transformador é de tal maneira vasto e se entremea nas conven ções lingí¼ísticas da disciplina com tamanha forma que resiste até mesmo aos experimentos individuais realizados na feitura das etnografias. o ensaio de Asad é pessimista no seu tom geral. Ele não vislumbra um conhecimento antropológico livre das malhas da dominação. Apenas conclui que, para entender o envolvimento da antropologia com as condições de po der, deve-se analisar as condições em que o poder entra no processo de tra dução cultural. Mesmo pessimista, Asad é mais realista do que os seus cole gas desta coletanea, pois não é utí³pico, nem busca um mundo ou uma antro pologia que esteja Além da dominação. Implicitamente, reconhece que o poder e a dominação são ingredientes essenciais da condição humana. Asad não menciona o caso das "antropologias periféricas€ , e nem deve ser cobrado por isto; afinal, a antropologia brití¢nica é o foco de seu ensaio. Contudo, basta pensar no caso das antropologias realmente feitas nas periferias para vislum brar, se não uma saída, ao menos uma posição média entre saber e poder. Se não se adota uma forma muito ortodoxa da teoria da dependíªncia, é possível, sem muito esforço, notar que a relação entre um antropí³logo, digamos, brasi leiro, com os grupos sociais que estuda não é marcada pela mesma desigual dade que caracteriza a relação, digamos, Gellner-Berber, e isto deve transpa recer nos textos produzidos por estes. A partir das críticas de Rorty, Hacking e, mais especialmente, de Fou cault, a epistemología e ao conhecimento como representação, Rabinow exa mina a tendíªncia de pensar a etnografia como texto e as estratégias neste 145
  • Wilson Trajano Filho caso adotadas: discute a questão da autoridade etnográfica, o surgimento de uma meta-antropologia e os conceitos diálogo e polifonia. Rabinow relaciona esta nova tendíªncia com o surgimento de uma crise da representação e com a emergíªncia de uma cultura Pós-moderna. Ao contrário de Tyler, o Pós-mo- derno é visto por Rabinow como um evento histí³rico específico e localizado. Apesar de simpático a critica da representação e as tentativas de experimento com o texto etnográfico, Rabinow tem uma visão critica da cultura Pós-moder- na e dos debates, a partir desta perspectiva, acerca da escrita etnográfica. Seu argumento é de que o Pós-moderno não enxerga sua prí³pria situação, comprometido que está com as ênfases na parcialidade, na fragmentação e no fluxo. Sua situação e, na realidade, a prí³pria noção de situação são tío instá veis que não conseguem sequer tornar-se objetos de uma reflexão (:252). não posso aqui fazer justiça a complexa argumentação do seu ensaio, que vejo como um dos mais importantes do livro, porque nele há a sugestá, mas infelizmente, somente uma sugestá, de uma nova abordagem para o tema geral do livro. Tendo demonstrado, com a ajuda dos filí³sofos, que o co nhecimento científico e sua verdade, percebidos como representação, são práticas sociais historicamente constituidas. Rabinow descarta como parcial qualquer tentativa de compreender o fazer etnográfico, clássico-realista ou experimental-Pós-moderno, somente pela via da reflexão teórico-epistemolí³gi- ca. Propíµe que o debate sobre o escrever etnográfico envolva uma reflexão sobre o poder no seu nível mais mocroscí³pico, isto é, uma reflexão sobre a política acadíªmica e editorial, as práticas cotidianas dos antropí³logos nos de partamentos das universidades, nos simPósios, conferíªncias e encontros científicos. Em suma, propíµe que o debate sobre a prática etnográfica con temporí¢nea seja compreendido, também pela via de uma sociologia da prática antropológica, no campo e nos departamentos. Marcus também parece seguir esta mesma linha de raciocínio no seu curto €œAfterword€. Ali ele articula a tendíªncia experimental com aquela expe riíªncia que constitui a identidade do antropí³logo: a elaboração de uma dis sertação para a obtenção do grau de doutor, uma credencial profissional bási ca. Vista, entío, no contexto das carreiras profissionais, Marcus argumenta que tal tendíªncia pode ser compreendida, em parte, como uma reação a expe riíªncia de treinamento inicial, geralmente conservadora, que resulta numa dis sertação de doutoramento. O que não fica claro é se tal reação é decorrente de insatisfações teí³ri cas, existenciais, estéticas ou se é apenas parte de uma estratégia geral de ascensão profissional. não fica claro porque, tanto o ensaio de Rabinow, 146
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modernos? quanto o de Marcus apenas sugerem a necessidade de uma sociologia do campo intelectual sem, no entanto, realizá-la. Embora não seja aqui o espaço para tal sociologia, desejo relembrar alguns fatos: a partir dos anos 60, a an tropologia tem crescido muito nos Estados Unidos, formando uma comunidade de tamanho suficiente para a emergíªncia de um mercado editorial específico (Stocking, 1983:8). Atualmente, as universidades americanas formam mais doutores por ano do que sua capacidade de absorvíª-los. Um dos íºltimos níº meros do Newsletter da Associação Americana de Antropologia retrata o perfil do antropí³logo padrío dos anos 80: mulher, tendo os Estados Unidos como área de interesse, trabalhando fora do circuito acadíªmico. Estes fatos, asso ciados com o ditado publish or perish, que está cada vez mais em evidíªncia, se o caso é a obtenção de tenure, nos conduzem a um quadro claro: sendo a academia o local privilegiado para a atuação profissional dos antropí³logos e havendo mais antropí³logos do que vagas nos departamentos, a conclusão é que o mercado profissional está muito apertado, havendo uma intensa compe tição para o preenchimento das poucas vagas abertas nas universidades. Seria um tanto leviano concluir que o experimentalismo prevalecente í±as etnografias de hoje é uma estratégia para ascender numa carreira que oferece poucas oportunidades de trabalho. Seria ainda mais leviano prosseguir dizen do que toda a ênfase na interdisciplinaridade (algo que anda lado a lado com o experimentalismo) não passa de um movimento tático para os antropí³logos ocuparem espaço e vagas em outros departamentos. Contudo não creio que seja leviano afirmar que as condições do mercado de trabalho, os símbolos de prestígio no interior da €œcultura antropológica€ e o conjunto de direitos e deve- res decorrentes das relações estabelecidas pelos antropí³logos na sua prática cotidiana são elementos a serem levados em conta, se se quer compreender o experimentalismo hoje em voga na elaboração das etnografias. Isto não quer dizer, de modo algum, que uma sociologia do campo intelectual esgote total mente esta questão, mas sem ela toda outra forma de resposta é incompleta. Uma maneira de compreender mais completamente a virada hermenéuti ca-experimental em voga em alguns setores da antropologia americana é to mar como foco a economia política da academia. Attali argumenta que, nas sociedades capitalistas Pós-industriais, €œa crise não é uma ruptura . . . , mas uma diminuição na eficiíªncia da produção de demanda, um excesso de repe tição€ (1985:127). Este excesso de repetição conduz, fatalmente, a um fluxo redundante, o que significa dizer, uma perda na significação dos objetos e re lações. Num mundo onde objetos e relações está sempre ameaçados pelo sem sentido, embora continuem a ser reproduzidos nesta ausíªncia, a produ 147
  • Wilson Trajano Filho ção de demanda é pouco eficiente. De fato, há uma diminuição da demanda por respostas funcionalistas a questões antropológicas contemporí¢neas, e o mesmo pode ser dito das respostas provindas dos outros "ismos€. Afinal de contas, elas são de antemío conhecidas. Mas o que significa, exatamente, uma pouca demanda por respostas? Quer dizer, creio eu, pouca demanda por livros, por professores, por alunos, por simPósios.. . Em suma, pouca de manda por profissionais que comungam um mesmo universo de valores, idéias, símbolos e discursos; e pouca demanda por este universo em si mes mo. Portanto, a emergíªncia de uma tendíªncia experimental deve ser compre endida a partir de uma academia em crise, definida nos termos acima. A her meníªutica e a experimentação alimentam a economia política da academia, reduzindo, temporariamente, os problemas com a diminuição da eficiíªncia na produção de demanda, através de uma quebra da repetição, isto é, pela intro dução de uma novidade aparente. Vista deste modo, a crise da representação estaria ligada a sociologia da academia, sendo, pois, inadequado compreendíª- la como puramente abstrata e epistemolí³gica. De fato, Writing Culture carece de uma perspectiva sociolí³gica. Embora este íºltimo grupo de ensaios articule a problemática do texto etnográfico com condições de poder e dominação, tanto a nível macroscí³pico quanto a nível capilar, resta ainda ir Além da articulação em direção ao esmiuçamento deta lhado e substantivo da prática social dos antropí³logos. Talvez este esmiuçar em detalhes nos levasse a compreender a crítica quase impedosa de Crapan- zano a Geertz como uma busca por ampliar os espaços de atuação ou, vol tando a metáfora segmentária, como uma emergente fissão no clí interpretati vo, levando, conseqí¼entemente, a fundação de novas €œaldeias€ e ao recruta mento de novos seguidores e aliados. Mas, ainda resta sempre a versão psi colí³gica do assassinato simbí³lico do pai. Dando prosseguimento ao que penso ser limites de Writing Culture, reto mo a questão da autoridade autorial. Ela é denunciada como retí³rica e de composta em autoridades do pesquisador de campo, do narrador e da ciíªncia. Sua constituição nos textos etnográficos é analisada em detalhes, sua articu lação com as condições de poder é afirmada, mas fica em mim um sentimento de frustração. Tento expí´-lo. A questão da autoridade é examinada com o in tuito de mostrar os limites de um saber que se pretende objetivante. Os en saios de Crapanzano e Clifford chegam a afirmar a parcialidade da verdade da antropologia e o caráter ficcional das etnografias. Contudo, a ênfase na ques tío da autoridade autorial me parece uma forma de evadir-se da questão cen tral; a possibilidade de uma objetividade em antropologia. Já firmei, anterior- 148
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modernos? mente, que os temas da verificação e do julgamento se fazem presentes pela ausíªncia. O tema paralelo da objetividade, infelizmente, também se ausenta pela evasão fácil da discussão da autoridade. Frustração maior fica ainda no que se refere a forma e estilo em Writing Culture. Com exceção do ensaio de Tyler, todos os outros são formalmente organizados da mesma maneira: uma introdução na qual o tema central é mencionado, a leitura de duas ou mais obras (geralmente etnografias) como corpo do ensaio, uma breve seção conclusiva. APós a leitura dos tríªs primei ros ensaios, descobre-se o cí³digo formal e o livro começa a tornar-se repetiti vo. não fiz uma detalhada leitura do Writing Culture, mas sinto-me seguro para afirmar um lugar comum: tem o estilo sí³brio e bem comportado de um texto erudito, com uma leve ênfase nos recursos evocativos, o que diminui sua for ça analítica. Das cinco técnicas-táticas estilísticas mencionadas no ensaio de Fischer, encontro, com freqí¼íªncia, apenas a transferíªncia e a interferíªncia. Sem mais detalhes, Geertz é quase sempre o objeto da primeira e os autores do livro, os da segunda. Daí, ser surpreendente um livro que advoga a expe rimentação formal e estilística na construção do texto etnográfico se mostrar como extremamente certinho, quadrado, careta mesmo. Com a exceção dos aforismos em Tyler e de alguns momentos no texto de Fischer, em que há o jogo entre a histí³ria de sua interpretação e ela prí³pria, não acontece em Wri ting Culture praticamente nada a este nível. Nem mesmo o recurso ao humor irí´nico, proposto por Fischer, é posto em prática, excetuando-se, talvez, uns poucos puns antropológicos insossos, inodoros, incolores e inaudíveis (ver o ensaio de Crapanzano: 68-9). Como é í³bvio, Writing Culture é um livro, um texto, e como tal não pode ir Além dos limites de si mesmo, não pode realizar-se no novo espaço do Pós- texto que os antropí³logos Pós-modernos propíµem nos seus textos. Aliás, este ponto é bem colocado por Rabinow, que critica os Pós-modernistas por sua incapacidade de pensar a sua situação e a prí³pria situacionalidade (:252), sem, no entanto, atentar para este problema no contexto do texto coletivo do qual é um dos autores. Chupar cana e assobiar ao mesmo tempo sempre foi um problema. Porém, pode ser argumentado que o experimentalismo advogado no livro é para as etnografias, e sí³ para elas. Nisto Writing Culture não é claro. A con cepção do que vem a ser uma obra etnográfica é bastante abrangente, in cluindo Ladurie, Goethe, Catlin e outros autores não reconhecidos, tradicio nalmente, como etní³grafos. Isto é saudável, creio eu, mas apresenta um difi culdade de definição. A etnografia é pensada como um texto, um gíªnero literá- 149
  • Wilson Trajano Filho rio, o que significa dizer que é diferente do romance, do conto, da novela e mesmo da crí´nica de viagem. Mas, ao mesmo tempo, ela também é afirmada como semelhante a alguns destes outros gíªneros (ver o ensaio de Pratt). E a questão da identidade e da diferença que também está presente, pela ausíªn cia, em Writing Culture. Mas esta é uma questão menor. De maior importância é a relação que fica implícita entre teoria e descrição, entre etnologia e etno grafía. Se for o caso de a experimentação ser advogada apenas para as etno grafías, fica entío clara a existíªncia de um abismo entre o espaço da teoría e o da etnografia, que acabaría levando a um diví³rcio entre elas, o que é advo gado por Sperber (1985). Creio que tal diví³rcio é, no mínimo, litigioso, se não impossível. Creio ainda que os autores de Writing Culture são totalmente opostos a esta idéia mas a incapacidade deles de pensarem sua situação e seu texto leva, inevitavelmente, ou a assumi-la como uma conseqí¼íªncia lí³gi ca, ou a confessar o fracasso parcial do projeto experimental. Apesar de todas estas qualificações, algumas mais justas do que outras, Writing Culture merece e deve ser lido. é provocante, intrigante, novo, mas como um produto do homem vivendo na era da repetição (cf. Attali), redun dante as vezes, repetitivo quase sempre. Talvez seja uma obra mais impor tante para o leitor americano do que para o brasileiro, porque a consciência li terária tem estado historicamente presente no antropologizar de Antí´nio Cí¢n dido (cf. Peirano, 1987), de Gilberto Freyre, de Sérgio Buarque de Holanda e tantos outros. é verdade que Sapir foi um poeta interessante, mas sua poe sia nunca adentrou sua antropologia. Reafirmo, Writing Culture é importante, se por nada mais, por trazer uma consciência estética e ética para a antropo logia e por advogar etnografias menos aborrecidas. Mas nem sempre é ne cessário fundamentar a experimentação. Experimente apenas. não sei exa tamente a decíbelagem do barulho que os Pós-modernos andam por aqui a fazer, mas na antropologia americana ela é, por certo, alta. Por isto, eu quero concluir afirmando que não devemos nos assustar com tal barulho, se for o caso de ele existir. Repito, Writing Culture faz mais sentido nos Estados Uni dos; na realidade, ele é um produto da academia americana em crise causada por problemas na produção da demanda. Embora pareça apontar para ques tões gerais da Antropologia e, de certo modo, assim o faz, devo lembrar que o mais saliente e o mais real (ista) é afirmar a existíªncia de antropologías. E aquelas feitas no Brasil, índia, Nigéria, México . . . não são exatamente idíªnti cas e não dividem as mesmas questões daquela feita na América do Norte. Temos sempre que perguntar até onde chegou o Pós-moderno. 150
  • Que Barulho é esse, o dos Pós-Modemos? BIBLIOGRAFIA ASAD, Talal. 1983. Anthropological conceptions of religion: reflections on Geertz, Man, vol. 18, n9 2:237-59. ATTALI, Jacques, 1985. Noise: The Political Economy of Music. Minneapolis: University of Minnesota Press. CLIFFORD, James e George E. MARCUS (orgs.). 1986. Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography. Berkeley: University of California Press. GEERTZ, Clifford. 1973. The Interpretation of Cultures. Novalorque: Basic Books. PEIRANO, Mariza G. S. 1987. "O Pluralismo de Antí´nio Cí¢ndido€ . Trabalhos de Ciíªncias Sociais, Série Antropologia n2 58. Universidade de Brasília. SINDZINGRE, Nicole. 1986. L'Anthropologie: une structure segmentaire? L'Homme, vol. XXVI, n8 1-2:39-61. SPERBER, Dan. 1985. On Anthropological Knowledge. Cambridge: Cambridge University Press. STOCKING, George W. 1983. €œ History of Anthropology. Whencewhither€ in Observers Ob served: Essays on Ethnographic Fieldwork. (G. W. Stocking, org.). Madison: The Uni versity of Wisconsin Press. TAYLOR, Charles. 1979. €œ Interpretation and the Sciences of Man" In Interpretative Social Science: A Reader. (P. Rabinow e W. M. Sullivan, orgs.). Berkeley: University of Cali fornia Press. 151